Registro de missão — EP. 009
Autoliderança e alta performance
com Paula Pimenta1h02 de conversa
Diário de bordo
“Suas ações falam tão alto que eu não consigo te ouvir.” A frase, que Paula Pimenta trouxe de um treinamento e carrega até hoje, resume a tese do episódio: autoliderança vem antes da liderança, e é a coerência entre o que se fala e o que se faz. Engenheira de alimentos com 25 anos de carreira em Unilever, Cargill, Danone e Natura, Paula chega ao estúdio no episódio que também apresenta Hugo Melo como novo integrante da bancada do Mundo da Lua.
A conversa percorre a virada profissional que destravou tudo: depois de quinze anos em qualidade, ela aceitou mudar para uma área que não conhecia na Natura e descobriu que podia aprender qualquer coisa — desde que houvesse motivação. Ali liderou seu primeiro time sênior, com gente que sabia mais do que ela, e aprendeu que a competência decisiva é a escuta genuína: construir junto em vez de mandar. Dessa estrada saem os três pilares que ela observa nos líderes que realizam: sonhar o impossível, contagiar pessoas para o sonho e executar com persistência até o fim.
O episódio entra fundo no custo invisível da alta performance. Paula escreveu aos 17 uma lista de metas, casou aos 24 e virou diretora aos 30 — e, com tudo conquistado, se perguntou “era isso?”. Vieram a frustração, a fase de anestesia emocional entre os 34 e 36 anos e o fundo do poço em julho de 2016, quando um encontro genuíno com Deus abriu um processo de cura de cinco anos, de alma, corpo e espírito. A hérnia de disco aos 40, chorando de dor no sofá, foi o corpo cobrando a conta — e o início de uma rotina de cuidado físico que hoje inclui treino diário.
Da reconstrução saem as práticas: os múltiplos papéis da mulher executiva e a troca de chave entre líder, mãe e esposa; a história do filho e da van da escola, que ressignificou tempo como qualidade e não quantidade; a jornada das 9 às 17 mantida por quinze anos; reuniões que acabam quando a decisão sai. Paula ainda desmonta o vitimismo de quem terceiriza a própria evolução para o RH — “é só uma desculpa” — e apresenta o livro “Comece por Você”, lançado em julho, nascido dessa jornada de autoliderança que ela hoje também ensina como mentora e professora no G4 Educação.
Linha do tempo da missão
Clique em um capítulo para assistir aquele trecho na janela de transmissão.
Transcrição da missão
Transcrição revisada da conversa, organizada pelos capítulos acima.
›Abertura e novo integrante do time
Para este episódio, o Mundo da Lua chega com uma mudança na bancada. Thiago Escala se mudou para Fortaleza, “outro mundo da lua”, e para compor o time entra um novo integrante: Hugo Melo, apresentado como “estagiário interno”.
Hugo se apresenta: tem 46 anos, é casado com Danila há 17 anos (20 de relacionamento) e é pai de Felipe. Atua profissionalmente desde os 15 anos e com tecnologia desde os 27 — começou antes do bug do milênio. Passou nove anos na HP, tanto na parte técnica quanto em gestão de pessoas e de times, e está há 17 anos na Natura, na área de engenharia, por onde já passou por diversas áreas e projetos. Como hobby, gosta de automóveis clássicos e de futebol, que ainda consegue jogar uma vez por semana.
Ele agradece o convite, diz que ficou nervoso com a estreia e conta que já era fã do podcast mesmo sem conhecer os outros dois anfitriões pessoalmente. Quando viu a lista de temas e convidados que estava por vir, soube na hora que não podia perder a primeira gravação: a pauta era autoliderança e carreira, com a convidada Paula Pimenta.
›Paula Pimenta entra no estúdio
Antes de apresentar a convidada, os anfitriões brincam que ela é “difícil” — levaram meses de desencontros de agenda até fechar a gravação. Paula Pimenta entra no estúdio, e o time celebra a chegada.
Paula agradece o convite e diz acreditar que a conversa vai render bastante, mesmo com os atrasos de agenda de ambos os lados. Como de praxe, ela recebe a caneca do Mundo da Lua — essa, avisam os anfitriões, é especialmente dela. Entre risadas, rola a piada de sempre sobre a falta de patrocínio: se alguém quiser patrocinar água para o podcast, as garrafas são bem-vindas.
›Quem é você além do crachá
Chega a pergunta que abre toda entrevista do podcast: quem é você além do crachá? Paula brinca que, atualmente, está “sem crachá” — e aproveita para defender que a identidade de ninguém deveria ser definida pela empresa em que trabalha, porque o emprego é só um meio, um lugar onde se está, não um sobrenome.
Ela se apresenta: é casada há 22 anos e tem um filho, João Paulo. Conta uma curiosidade — é mineira, mas nunca morou em Minas Gerais. Os pais são mineiros, mas ela nasceu e foi criada no Pará, onde morou dez anos: os cinco primeiros numa fazenda, os demais em Belém. Aos dez anos, a família se mudou para Goiânia, porque o pai considerava a cidade “o meio do caminho” entre Minas e o Pará.
Em Goiânia morou 13 anos, fez faculdade — engenharia de alimentos — e conheceu o marido, que é goiano. Assim que se formou, mudou-se para o interior de São Paulo. Morou em Tatuí e depois em São Roque, até se estabelecer de vez na capital paulista, onde já está há quase 20 anos — a cidade em que mais tempo viveu na vida.
›Trajetória: engenharia de alimentos, Unilever, Cargill, Danone, Natura
Paula é engenheira de alimentos, mas diz que sua carreira mudou muito nos últimos dez anos — tanto que quase não se lembra dos primeiros 15 anos de profissão, sempre na área de qualidade, analisando produto em laboratório. “Era pessoa de bolor e levedura”, brinca, dizendo que hoje já nem lembra como se faz uma análise técnica.
A carreira começou como estagiária na Unilever, empresa apelidada de “Unilover” por formar tantos casais — inclusive o dela: na época, ela era estagiária e o futuro marido já era analista. Depois de um ano, passou num programa de trainee na Cargill, onde trabalhou em duas fábricas no interior de São Paulo: uma de moinho de trigo e outra de soja, gorduras e maionese, em Mairinque.
Com quase quatro anos de Cargill, foi para a Danone, onde ficou quase nove anos, a maior parte deles em qualidade — no fim, assumiu também meio ambiente, segurança e gestão de crise. Da Danone veio o convite para a Natura, empresa em que ficou quase 11 anos e que ela descreve como um grande presente na sua vida.
›Mudança de área e o presente profissional na Natura
Na Natura, Paula entrou na área de qualidade, mas um ano depois recebeu um convite para mudar de área — decisão que ela chama do maior presente profissional que já recebeu: alguém enxergou nela o que ela mesma não via. Foi um movimento para uma área totalmente nova, sem que ela conhecesse nada daquilo, e ali descobriu algo importante: podia não saber, mas, com motivação, conseguia aprender qualquer coisa. Isso destravou muita coisa em sua vida a partir dali.
Questionada sobre as múltiplas funções que exerce hoje — incluindo dar aulas no G4 Educação —, ela conta que essa transformação não é só dos últimos cinco anos, mas dos últimos dez: um processo que culminou justamente na mesma semana em que mudou de área na Natura e teve, na vida pessoal, um encontro poderoso com Deus. O que se vê de fora, diz, é sempre só a ponta do iceberg — a fundação da história não aparece.
Ela credita boa parte dessa virada a ter tido gestoras mulheres — cita três especialmente boas, entre elas Jose Romero — que sempre souberam tirar o melhor dela. Foi esse acompanhamento que gerou o primeiro entendimento de que o único limitador de alguém é ela mesma: a partir do momento em que a pessoa decide que dá conta e que quer, começa uma jornada desafiadora de aprender novas competências técnicas e comportamentais.
›Liderar time sênior e o poder da escuta genuína
Foi nessa nova área que Paula assumiu seu primeiro time sênior, depois de estar acostumada a liderar times juniores. O medo inicial era grande: como liderar gente que sabia mais do que ela e ainda ser respeitada? Mas ela descobriu que preferia, de longe, liderar um time sênior — quanto mais as pessoas sabem, melhor.
A diferença está numa competência que ela precisou desenvolver: a escuta genuína. Diante de um time que já domina o assunto, não cabe mandar o que fazer — cabe escutar e construir junto, mesmo que isso demande mais tempo e mais alinhamento. Um time júnior precisa de mais direção, porque ainda não sabe bem o que fazer; um time sênior tem maturidade e autonomia, quer e deve ser ouvido.
Ela lembra que, por não conhecer nada daquela nova área, se tornou o “elemento estranho” que podia fazer qualquer pergunta e ter qualquer ideia fora da caixa — e foi assim que trouxe questionamentos que fizeram o time pensar diferente. Um desafio concreto veio logo: reduzir em três anos 50% dos contatos, uma meta que ela negociou e que o time só abraçou de verdade quando começou a ver resultado. A partir daí, aprendeu que fazer junto é diferente de mandar: exige trabalhar a diversidade de pensamento e de repertório, ser mais empática e ter uma escuta mais aberta — a diferença entre ser um gestor “louco” e um gestor visionário, que contagia o time com uma direção clara.
›Três pilares dos líderes que realizam
Da experiência de 25 anos de carreira, Paula resume em três pontos o que vê nos líderes bons de verdade. O primeiro é sonhar o impossível: enxergar algo que a maioria não vê e acreditar tanto nesse sonho a ponto de contagiar outras pessoas — porque sozinho, o líder sabe que não vai conseguir realizar nada.
O segundo ponto é justamente essa capacidade de trazer as pessoas para dentro do sonho, depois de passar pela “sabatina” de quem só acredita depois de ser convencido. O terceiro, talvez o mais difícil, é executar: não adianta sonhar se não sai do papel. Ela lembra a provocação de que o lugar com mais sonhos do mundo é o cemitério — cheio de gente que sonhava, queria vencer na vida, mas nunca foi atrás.
A esse terceiro pilar soma-se a persistência: tentar um caminho, não dar certo, tentar outro, até achar o caminho certo e então investir as fichas nele, vendo o negócio crescer aos poucos. Por trás de todo líder que realiza há inúmeras competências — persistência, disciplina, organização, coragem, força de vontade —, porque a jornada de entrega nunca é fácil. É por isso, concluem, que não é fácil ser líder: muita gente orienta, mas poucos praticam o que pregam e são exemplo.
›Autoliderança: suas ações falam tão alto que eu não te ouço
Esse gancho — a distância entre orientar e ser exemplo — leva Paula a um tema em que vem se dedicando há dois anos. Ela conta uma história pessoal: durante toda a vida, ela e o marido diziam ao filho, João Paulo, que Coca-Cola fazia mal, mesmo tomando eles próprios Coca-Cola Zero. Até que, um dia, o filho, já maior, perguntou por que então os pais bebiam se fazia tanto mal — e a resposta doeu.
Essa história, somada a uma frase que ela ouviu anos atrás num treinamento da Natura e carrega até hoje — “suas ações falam tão alto que eu não consigo te ouvir” —, fez Paula começar a pensar num passo anterior ao de liderar: a autoliderança. Antes de liderar os outros, é preciso se liderar; liderar pelo exemplo, porque é o exemplo que arrasta, não o discurso.
Autoliderar, segundo ela, é muito mais difícil do que liderar, porque liderar é simplesmente mandar fazer, enquanto autoliderar é falar e fazer — o que demanda persistência, disciplina, rotina, organização e gestão das próprias emoções. É um desafio diário, constante, que exige constância. Foi esse tema que ela passou a estudar e ensinar nos últimos dois anos, percebendo que é algo do qual pouca gente fala.
›O fundo do poço, o encontro espiritual e os cinco anos de cura
Provocada, entre risadas, sobre como “atingiu essa plenitude” espiritual, Paula lembra que o que se vê de fora é sempre a ponta do iceberg de uma construção intencional dos últimos dez anos — mas que, na verdade, somos formados desde que nascemos. O que começou a mudar foi um alinhamento espiritual: ela chegou ao fundo do poço extremamente ferida, com as consequências das próprias escolhas.
Ela sempre foi uma pessoa extremamente focada em objetivos: aos 17 anos escreveu numa folha o que queria para a vida — casar aos 24 (casou), ser diretora aos 30 (foi). O problema é que, nesse trajeto de correr atrás da entrega, ela não aproveitava a paisagem e via as próprias relações sendo prejudicadas, quase como um meio para chegar aonde queria. Por isso faz questão de dizer que não terceiriza nada e não se coloca como vítima dessa história — tema que também está no livro que escreveu.
Quando finalmente conquistou tudo o que estava naquela lista, entrou numa fase de muita frustração — “era isso?” — e, entre os 34 e os 36 anos, viveu um período que descreve como anestesiado: acordar, trabalhar, voltar pra casa no automático, sem ânimo para nada, quase uma depressão, embora ela frise que nunca teve depressão de fato. O gatilho de virada não foi a pandemia, mas ter mudado de área, vivido uma crise no casamento e se visto sem controlar mais nada da própria vida — o momento em que decidiu entregar o controle para alguém, porque já não conseguia mais dirigir aquele barco sozinha.
Foi nesse contexto, em julho de 2016, que ela teve um encontro genuíno com Deus. Era católica desde que nasceu, tinha feito toda a crisma e comunhão, mas vivia de “oração decorada”, sem relacionamento real — algo que mudou naquele momento. A partir dali começou uma construção interna, invisível para quem está de fora, e demorada: havia muito o que curar na alma, muita mentalidade, prioridade e valor para reconstruir, processo que ela compara a uma panela de pressão que não pode ser aberta antes da hora. O primeiro trabalho de autoliderança, diz, foi permitir ser curada — porque ninguém doente é um bom líder, um bom gestor, uma boa mãe ou uma boa esposa. A parte mais difícil foi se enxergar no espelho e assumir que não podia culpar ninguém além dela mesma — um processo que durou cerca de cinco anos e que, segundo ela, continua até hoje, exigindo consistência para não deixar a conta voltar a chegar.
›Hérnia de disco aos 40: o corpo cobrando a conta
Em determinado momento desse processo, a lombar de Paula travou e ela teve uma hérnia de disco — o corpo, diz, acaba respondendo, cobrando a conta em forma de sintoma. Ela se lembra de estar deitada no sofá aos 40 anos, chorando de dor, e entender que aquele era outro momento do “carro batido”: não bastava mais só orar, era preciso também agir.
Dali começou uma jornada de cuidar do corpo, com a decisão de nunca mais sentir aquela dor. O processo não foi rápido: começou devagar, com pilates, mas percebeu que só o exercício não bastava sem alimentação correta e acompanhamento profissional. Uma nutricionista foi direta: “você não come, precisa comer” — não dá para construir músculo sem comer o suficiente. Hoje ela se descreve como “a louca da proteína” e, ao consultar um novo médico, avisou logo que queria perder gordura sem perder músculo, porque essa é uma equação difícil.
Hoje ela treina todos os dias, há cerca de dois anos. E resume: conquistar um resultado — como ganhar um prêmio — não é o mais difícil; o difícil é manter. Foi também nesse período que passou a trabalhar mais a parte comportamental, entendendo que ocupa papéis diferentes — profissional, mãe, esposa, amiga — que exigem comportamentos diferentes entre si.
›Múltiplos papéis da mulher: mãe, esposa, líder
A conversa entra no tema de como a mulher acumula muitas funções — sem cair na hipocrisia de dizer que o homem vive exatamente a mesma rotina doméstica. Paula conta que tenta equilibrar as tarefas em casa (aprendeu no YouTube a fazer coque no cabelo da filha para o balé) e reflete sobre a cobrança que, no dia a dia, muitas vezes vem do próprio parceiro — quando, na verdade, o equilíbrio é algo que o casal precisa construir junto.
Ela é sincera sobre os próprios erros: quando o filho nasceu, assumiu tudo sozinha, no modo “Mulher Maravilha”, ocupando inclusive espaços que caberiam ao marido, mesmo reconhecendo que existem papéis específicos de cada um dentro da paternidade. Conta um episódio simbólico: durante meses pediu ao marido para pendurar uns quadros que ficaram encostados no chão depois de uma mudança, sem sucesso — até que um dia pegou a furadeira e fez sozinha, torto, escondido atrás do quarto. Quando o marido viu os quadros pendurados e perguntou quem tinha feito, ela respondeu que tinha descoberto que não precisava de homem para nada — frase que, ela reconhece rindo, não caiu bem na hora, mas que hoje não tem vergonha de compartilhar, porque pode ajudar quem estiver vivendo a mesma situação.
Por isso repete que nunca foi vítima nessa história: sabe o que fez e o que falou para chegar aonde chegou. Com o tempo, foi aprendendo a ceder espaço e a abrir mão de que tudo fosse perfeito — como equilibrar vários pratos no ar, sabendo que algum vai cair e quebrar, e que está tudo bem. Hoje entende que o equilíbrio não é uma questão de quantidade de tempo, mas de qualidade: passou a ser, de fato, a mãe que leva o filho à escola. O próprio filho, ela nota, nunca deu trabalho na escola e sempre estudou sozinho — reflexo, ela acredita, de ele saber que, se pedisse ajuda à mãe, ela não teria tempo.
›A história do filho, a van da escola e ressignificar tempo
Paula conta uma história de cerca de três anos atrás. O filho, João Paulo, foi diagnosticado em 2021 com uma doença autoimune, a doença de Crohn. Cerca de um ano e meio depois, ele já não tinha mais sintoma nenhum: foi um testemunho de cura.
Algum tempo depois, o menino passou a sentir dores na barriga de novo, e ela ficou preocupada se o quadro tinha voltado. Os exames não davam nada — era emocional. Ele ligava da escola pedindo para ser buscado, e ela demorou a entender o que estava acontecendo, até ele revelar que o problema era ir para a escola de van: a van passava às 6h15, e a escola, a apenas 1,5 km de casa, começava às 7h. Um dia, ao ouvir de novo o filho reclamando da van, ela teve a clareza: era ela quem devia levá-lo. Ligou para ele e avisou que, a partir daquele dia, seria ela a levá-lo todos os dias — e a dor sumiu na hora, sem voltar desde então.
Foi um momento de ressignificação: não se trata de acordar mais cedo para levar o filho à escola, mas de acordar para ter um momento com ele. Hoje esse trajeto de carro é um espaço só dos dois, sem barulho, onde ele conta o que está acontecendo e às vezes rezam juntos.
Esse aprendizado se conecta a outro: o de que a mulher carrega diferentes “chapéus” — o de líder e gestora, mais firme e direta no trabalho, e o de mulher, mãe e esposa, em casa. O marido, no início do casamento, reclamava que ela falava com ele “igual fala com os funcionários” — um incômodo que, ela reconhece, também acontece no sentido inverso. A intencionalidade é o que resolve: o trajeto de carro entre o trabalho e casa virou o momento de trocar essa chave, de mudar de personagem antes de chegar. Em casa ela é mãe e esposa — e isso, longe de diminuí-la, é uma escolha da qual se orgulha, porque seria triste ser bem-sucedida profissionalmente e ter uma família destruída.
›Limites de horário, rotina e produtividade de verdade
A conversa segue sobre como tirar a pressão do trabalho ao chegar em casa. Paula foi aprendendo técnicas: separar claramente trabalho de vida pessoal (se ficar até meia-noite, vai ter trabalho até meia-noite), não trazer os problemas do dia para dentro de casa e responder que “foi tudo bem” ao marido mesmo depois de dias difíceis, para não reviver a emoção ruim. Ela também colocou limites concretos de horário: sair do trabalho a tempo de chegar em casa e participar da rotina de banho e da hora de dormir dos filhos, algo que hoje considera inegociável.
Quando engravidou, aproveitou a gravidez como justificativa para parar de viajar tanto (antes vivia de aeroporto em aeroporto) e adotou uma rotina de entrar às 9h e sair às 17h — rotina que manteve mesmo depois da licença-maternidade. Ela lembra um episódio na Natura em que um diretor a viu saindo e perguntou se ela ia “ficar até tarde”; com vergonha, ela nem respondeu que não ficava.
O segredo, segundo ela, é que dentro desse horário fixo ela é extremamente produtiva — “um trator” — porque sabe que, se ficar até mais tarde, sempre vai ter mais coisa para fazer. No início da carreira, sem filho, ficava até as sete, oito, nove da noite, e havia muito mais enrolação: conversas que podiam durar cinco minutos se esticavam por trinta. Com o tempo, aprendeu a ser mais eficiente, a decidir rápido e a encerrar reuniões assim que a decisão sai — nada de preencher uma hora inteira quando meia hora já resolveria.
Ela manteve, por 15 anos, a mesma agenda: entrada às 9h, saída às 17h, independentemente da fase da empresa (mesmo em fases de startup, que consomem muito mais horas de quem aceita). Tinha uma regra: não aceitava reunião marcada às 17h30, porque a pessoa teve o dia inteiro para encontrar um horário melhor — com exceções pontuais, claro. No começo da carreira até trabalhava fim de semana; hoje, mesmo dando aulas e outras atividades extras, não senta para fazer um projeto de trabalho fora do expediente, porque dorme cedo e sabe que entregaria um trabalho pior. Ela nunca abre a agenda à noite, e virou referência para outras mulheres na Natura, que a procuravam para mentoria sobre rotina e agenda. Para ela, ter uma boa saúde física passa necessariamente por essa rotina — comer bem e se exercitar todos os dias exige organização. Hoje sua meta não é mais velocidade nem intensidade, é constância: chegar até o fim, com qualidade — inspirada até pela longevidade da família, já que a bisavó morreu com mais de 100 anos e a avó tem 95 —, chegando bem tanto física quanto mentalmente.
›Trabalhar muito não é promoção: tempo é investimento
Paula faz questão de desmistificar a ideia de que trabalhar muito é sinônimo de promoção ou de sucesso. Ela cita uma série que assistiu, em que um homem rico dá uma entrevista dizendo que os pobres são pobres porque não trabalham muito — até ele próprio ficar pobre e passar a pegar ônibus, vendo de perto como o pobre realmente trabalha. Se trabalhar muito fosse sinal de prosperidade, argumenta, os mais pobres seriam os mais ricos.
Para ela, a equação não passa por trabalhar muito, mas por escolher bem o que fazer, priorizar, entender o que realmente traz resultado e ser estratégica — o resto sobra em forma de tempo livre. Todo mundo tem a mesma capacidade; o que muda é a qualidade da escolha: uma decisão ruim leva a um projeto ruim, e o tempo gasto ali não volta.
Ela cita o autor Rick Warren para lembrar que tempo não aceita desaforo — não dá para comprar, é igual para rico e pobre, é a única coisa realmente comum entre todas as pessoas: Elon Musk tem 24 horas, Donald Trump tem 24 horas, todo mundo tem 24 horas. A diferença está em onde cada um escolhe investir esse tempo, que é escasso — e às vezes esse investimento é, conscientemente, assistir televisão. A frase que resume tudo: tempo é investimento.
›Terceirizar autoliderança para o RH é desculpa
A pergunta seguinte é sobre gestores que depositam no RH a responsabilidade pela própria autoliderança. Paula não poupa críticas: fala da “geração mimimi” e do estranhamento de ver estagiários querendo escolher o gestor com quem vão trabalhar a partir do perfil dele nas entrevistas — “na minha época você só entrava para trabalhar”. Mas faz questão de dizer que o problema não é geracional: tem muita gente, de qualquer idade, no lugar de vítima, colocando a culpa sempre em algo externo — o RH, o gestor, o pai, a mãe — como se sempre existisse um culpado ou um salvador, nunca a própria pessoa.
Ela explica que terceirizar é mais fácil do que se autoliderar: é dizer que não cresceu profissionalmente porque ninguém ajudou, que não consegue se exercitar porque a agenda está complicada, que come mal porque não tem tempo. O lugar de vítima é confortável, acolhe — mas não resolve nada.
Para ilustrar, ela cita o exemplo de um ex-participante de reality show que sofreu um acidente, ficou paraplégico e, em vez de se acomodar reclamando da vida, virou campeão olímpico. Ele tinha, segundo ela, toda razão para se colocar como vítima — mas escolheu não ficar ali. Existem vítimas reais, de situações realmente vulneráveis, mas a escolha de permanecer no vitimismo não resolve nada: só a própria pessoa pode decidir sair desse lugar, ressignificar a dor e seguir em frente. Por isso, conclui, o RH é só uma desculpa para quem não está fazendo a própria parte.
›Comece por você: o livro e o passo prático
Perto do fim, os anfitriões pedem recomendações práticas sobre autoliderança. Rindo, a primeira dica de Paula é: comprar o livro dela. O livro nasceu da própria jornada de entender o que tinha acontecido consigo, organizando em pontos de autoliderança tudo o que viveu e trazendo um novo lugar de plenitude — que não é bater meta, mas estar plena. Ele se chama “Comece por Você”, título que já tira a pessoa do lugar de vítima; ela sugere presenteá-lo a quem vive terceirizando a própria evolução para o RH. O lançamento foi no comecinho de julho, e ela também produz bastante conteúdo sobre o tema nas redes sociais.
Para quem está começando, a recomendação é olhar para dentro: se avaliar de verdade, no espelho, sem esperar que os outros façam esse julgamento. A pergunta que ela propõe é: você está feliz com a pessoa que você é hoje? É a pessoa que sonhava ser quando criança? Você segue os seus próprios valores? Esse é o lugar mais profundo, onde nascem os insights de mudança — um exercício que dói e exige disponibilidade real. Se não conseguir sozinho, ela recomenda buscar ajuda: psicólogo, terapeuta ou aquele amigo de confiança.
Ela conta que a própria mentora, Débora, certa vez pediu a opinião sincera dela sobre um assunto — e Paula percebeu que nunca tinha parado para pensar sobre aquilo. São poucos os amigos com quem se pode abrir esse tipo de espaço e confiar que a resposta será sincera e vai ajudar de verdade. Isso, ela diz, também aprendeu como líder: feedback que serve para destruir o outro não é feedback — tem que partir do pressuposto de que quem fala quer que a outra pessoa evolua. É por isso, aliás, que tanta gente tem medo de dar e receber feedback. Autoavaliação, resume, é o primeiro passo para ser um bom líder, um bom colaborador ou, simplesmente, uma boa pessoa.
›Recomendações: livro, série e cuidado com o corpo
Pedidas dicas de livro, série e filme, Paula indica primeiro um livro que já leu duas vezes e que sempre a inquieta: “Até a Última Flecha”, de Erwin McManus. De série, recomenda “The Chosen” — que ela descreve como “a Bíblia em 3D, 4D” —, ótima para quem tem dificuldade de ler a Bíblia; assistiu só a primeira temporada, mas achou linda.
De filme, ela admite que faz tempo que não assiste nada novo — o último foi “O Poderoso Chefão II” — e que o marido está numa fase de rever clássicos antigos. Entre os relativamente mais recentes, cita “Em Busca da Felicidade” como um filme de que gosta bastante. De série mais atual, está assistindo e recomenda “A Casa de Davi”, sobre a história do rei Davi, disponível no Prime Video.
Fechando o tema do corpo, ela conta que gosta de ouvir podcasts sobre treino com o marido — hoje há conteúdo disponível para qualquer pessoa que queira aprender a se exercitar, no YouTube ou em podcasts, incluindo dicas de alimentação para quem perde a criatividade na cozinha. Para ela, a saúde começa na alimentação, na boca: fazer boas escolhas do que se ingere já traz resultado em energia, sono e qualidade de vida — e só depois, quando sobrar tempo, vem o exercício.
›Encerramento
Os anfitriões agradecem a Paula Pimenta o tempo dedicado à conversa e convidam para ela sempre contar com o podcast na divulgação de seus cursos. Ela indica as redes sociais — Instagram, YouTube, TikTok e LinkedIn — todas sob o mesmo nome, Paula Válio Pimenta.
Questionada sobre os cursos que ministra no G4 Educação, ela conta que hoje dá duas aulas: uma de retenção de clientes e outra de gestão de pessoas. Os anfitriões prometem procurá-la para fazer os cursos, agradecem mais uma vez e encerram o episódio.