Registro de missão — EP. 005

Alta performance, Everest e carreira

com Filipe Chamusca1h14 de conversa

Diário de bordo

O que a alta performance no esporte ensina sobre carreira? Filipe Chamusca responde com uma trajetória pouco óbvia: cientista social de formação, entrou na Natura como estagiário de relações governamentais — negociando repartição de benefícios com comunidades extrativistas na Amazônia — e, a cada três anos, migrou de área até liderar produtos digitais e uma transformação cultural em uma empresa de 15 mil colaboradores. No meio do caminho, oito anos expatriado na Colômbia e a lição que atravessa o episódio: propósito não é discurso, é filtro de escolha — foi ele que decidiu entre duas propostas de estágio e que sustentou 19 anos na mesma empresa sem acomodação.

A montanha entrou na história em 2014, num trekking até a base do Everest, a 5.300 metros: na época, o atletismo de Filipe era futebol de segunda-feira. Ali nasceu um sonho concreto — escalar a montanha mais alta de cada um dos sete continentes — e um planejamento incremental de dez anos: Elbrus, Kilimanjaro, Aconcágua e Denali antes do Everest, com triatlo, Ironman, maratona abaixo de 3 horas e ultramaratona construindo a base física no caminho. Quando veio a saída da Natura, a decisão do dia seguinte foi um ano sabático dedicado ao Everest — bancado do próprio bolso, sem patrocínio, fruto de anos de planejamento também financeiro. Por isso ele não responde que se preparou um ano para a montanha: foram dez.

O bloco de liderança parte dos Sherpas, etnia do Himalaia sem a qual quase ninguém escala uma montanha de 8.000 metros: eles não têm hierarquia sobre o cliente, mas arriscam a própria vida para que outras pessoas realizem seus sonhos — e é essa a definição de liderança por influência que Filipe defende para o mundo corporativo, onde todo mundo depende de um Sherpa e é Sherpa de alguém. Na outra ponta está o ego, que ele aponta como o grande erro das organizações: a montanha impõe vulnerabilidade — quem decide tudo é ela —, enquanto empresas ainda premiam quem não admite que não sabe. A síntese veio de um guia, depois de uma tentativa frustrada por risco de avalanche: "o topo é para o ego, a jornada é para a alma".

A conversa termina nas experiências-limite. No Aconcágua, descendo exausto depois de 12 horas de subida, o grupo encontrou um alpinista desmaiado a 6.800 metros, saturando 60% — altitude onde helicóptero não chega — e o resgate até o campo 3 virou a experiência mais transformadora da sua vida: presença total e a consciência de que nenhum sonho aguenta ser adiado para sempre. No sabático, ele ainda atravessou sozinho quase 2.000 km do Vietnã de bicicleta, na rota Hanói–Ho Chi Minh. No horizonte ficam as duas montanhas que faltam para fechar os sete cumes — na Oceania e na Antártida —, as majors de maratona e as dicas de leitura que fecham o episódio, de Chasing Daylight a Shoe Dog. Um episódio para quem lidera equipes, empreende ou sente que precisa reconectar carreira e estilo de vida.

Linha do tempo da missão

Clique em um capítulo para assistir aquele trecho na janela de transmissão.

Transcrição da missão

Transcrição revisada da conversa, organizada pelos capítulos acima.

Abertura e boas-vindas

Sejam bem-vindos ao quinto episódio do Mundo da Lua, seu podcast fora da caixinha. Mais uma vez, para essa viagem da Terra à Lua, eu com os meus amigos, esses lunáticos Tiago Scala e Thiago Rosa. Boa noite! No programa de hoje vamos abordar um assunto super importante: como ter alta performance no mundo dos negócios. Temos aqui um convidado, Filipe Chamusca.

Filipe, seja muito bem-vindo ao nosso podcast. Muito obrigado pelo convite, um prazer estar aqui com vocês e compartilhar um pouco dessa história de quase 20 anos com os ouvintes. Obrigado, mais uma vez, bem-vindo, bem-vindo.

De Ciências Sociais à Natura: como nasceu a carreira

Como foi sua trajetória profissional até aqui, de cientista social a chegar a se tornar head de produtos digitais? Conta um pouquinho pra nós, porque não é trivial essa carreira tão ampla e tão transversal.

Quando eu me formei em Ciências Sociais — que, na verdade, explicando pras pessoas, é uma base de ciências políticas, antropologia e sociologia — a partir desses três pilares eu entrei na Natura, justamente como estagiário, para trabalhar com relações governamentais, que tinha a ver com ciências políticas. Mas, logo depois, dois anos depois, eu comecei a migrar dentro da Natura para outras áreas. Então eu entrei em algo que de fato me conectava com a minha essência, com aquilo que eu estudei, que eu acreditava. Mas, ao longo do tempo, eu fui migrando, e brinco que a cada três anos eu ia para algo novo — não só pela curiosidade que eu tinha, mas também pela questão de me desafiar e buscar mais performance.

A cada três anos eu fui mudando, e aí passei por todas as áreas possíveis: desde planejamento estratégico, uma parte de governança executiva, a parte comercial, até chegar em produtos digitais. Fiquei um bom tempo fora do país também — fiquei oito anos na Colômbia. Então eu falo que não é trivial porque, muitas vezes, as pessoas de Ciências Sociais vão trabalhar no terceiro setor ou em ONG, mas eu acabei construindo uma carreira no mundo corporativo, e gostei muito de ter esse olhar um pouco mais amplo e mais transversal.

Me fala uma curiosidade: por que você escolheu Ciências Sociais? Acho que sempre esteve muito conectado com a minha preocupação em poder gerar impacto social, ter um estudo, mas depois um trabalho que estivesse conectado com o meu propósito e com as causas em que eu acredito. Ciências Sociais estava mais por esse lado: querer entender a parte de sociologia, de política. E, no primeiro momento, dificilmente eu acreditava que iria trabalhar no mundo corporativo.

A minha dúvida tava exatamente aí: como é que você foi parar no corporativo? Eu, até logo antes de terminar a faculdade, morei um tempo na França, como parte da universidade, e depois fui para a Guatemala. O meu sonho, eu sempre falava, era trabalhar nos Médicos Sem Fronteiras — não necessariamente com médico, mas na parte de administração, logística, o que fosse. Fui parar na Guatemala, num braço que eles tinham lá dos Médicos Sem Fronteiras, e trabalhei seis meses numa ONG local, um orfanato.

Eu tinha que fazer seis meses de estágio para me formar, e não queria trabalhar em qualquer empresa. Falei: já que preciso fazer um estágio, vou tentar encontrar alguma empresa que tenha a ver com o meu propósito. Fiz o processo seletivo, e deu tudo a ver — tanto que, por conta desse 'tudo a ver', fiquei 19 anos na Natura. Tiveram muitos momentos, ao longo desses anos, em que eu justamente me questionava: será que eu ainda preciso estar aqui, ou será que isso me conecta com o meu propósito? Sempre encontrava esses porquês.

No início, acho que foi isso que me mobilizou ao mundo corporativo: o impacto que as iniciativas privadas geram, em alguns casos maior até que o do terceiro setor. Eu tava na Guatemala e percebia, na ONG, a dificuldade que a gente tinha para gerar impacto na região. E, logo que entro na Natura, estava em relações governamentais, responsável por cuidar de comunidades extrativistas em áreas de governo, que tinham a parte de insumos produtivos da Amazônia.

Eu ia muitas vezes para a Amazônia, e passava lá duas, três semanas fazendo contratos de repartição de benefícios e negociando com essas comunidades como a gente ia trazer benefícios pra elas. Nesse momento, eu percebia o quanto isso gerava de impacto em comparação ao terceiro setor. Foi um dos motivos que fui ficando. Mas, como eu falei, depois fui mudando e me conectando com o propósito de outra perspectiva.

8 anos na Colômbia: expatriação e reinvenção

E como foi essa jornada na Colômbia? Você foi bem depois, né — conta um pouquinho pra nós.

Na metade desses 19 anos eu tinha sempre ficado em áreas que chamo de executivas e corporativas, como planejamento estratégico — liderei um projeto que se chamava Natura 2030. É engraçado que a gente já tá próximo de 2030; isso foi em 2010. O tempo passa rápido, mas foi interessante planejar e estudar o que a gente imaginava que seria o mundo em 2030, e pensar nessas estratégias. Mas eu sempre estive muito longe do negócio.

Em 2012 eu recebo uma proposta de ir para a Colômbia — justamente uma operação nova que a gente tava começando, de construção de marca — e para ir para uma área de negócio. Seria, de fato, um salto na minha carreira, mas era algo de que eu gostava muito, até porque eu iria me conectar mais com as pessoas, com as consultoras, que é o modelo de negócios da Natura, e isso era outra parte que eu ainda não conhecia.

Fui para lá, cheguei em 2012. Foi um grande desafio. Eu sempre tive a oportunidade, e sempre gostei muito, de viver outras culturas; desde que pude fazer intercâmbio, quando tinha 15 anos, sempre coloquei isso como uma ambição — poder viajar e continuar conhecendo outras pessoas e culturas.

Fui para a Colômbia do zero: tanto para trabalhar em áreas de negócio quanto do país, que eu conhecia apenas como turista, muito pouco. Mas era começar uma vida nova, ali com 30, 31, 32 anos. Foi super interessante, um momento de aprender tudo. Foi bem desafiante, mas também não tenho dúvida de que foi onde mais me desenvolvi, mais me transformei.

Você comentou um pouco sobre desafios — e eu sei que de desafios você é especialista, né, para escalar o Everest. Mas aprofunda um pouquinho mais nesse assunto, porque ser expatriado não é comum, e realmente é um baita desafio, não só pra pessoa mas pra família também, que se move para um outro país, que tem que se adaptar à cultura, às vezes à língua. Como foi esse momento para você?

Eu talvez tivesse o benefício, por um lado, de estar indo sozinho — então era um desafio pessoal, não tinha que incorporar a família nesse processo. Mas não deixa de ser algo do zero: o idioma, conhecer uma nova cultura, trabalhar numa área nova. Mas eu sempre tive, talvez, essa necessidade, ao longo da minha carreira, de tempos em tempos buscar novos desafios.

Eu sempre ficava muito preocupado em estar cômodo — sentia um 'não chega', não é tédio, mas, quando percebia que já estava performando numa determinada posição... pensando em pessoas que estão no início da carreira: eu sempre tive uma preocupação em ser o protagonista das minhas mudanças dentro da Natura. Nunca esperei as pessoas virem até mim e falar 'olha, você não quer fazer isso'. Sempre fui eu que ia lá e falava: 'e agora, o que eu vou fazer?'.

A minha preocupação não era estar associada à promoção — em alguns casos, sim, vinha junto, mas não era essa a minha motivação. A minha motivação era aprender coisas novas, e de tempos em tempos, normalmente a cada três anos, eu chegava nesse momento de questionar: ou uma mudança para aprender coisas novas, ou, em alguns momentos, até me questionava se ainda precisava continuar ali. Sempre tive a oportunidade de ir me reconectando, aprendendo e me desenvolvendo com coisas totalmente diferentes das que eu tinha antes.

Propósito como bússola em uma carreira longa

A cada função que você foi aprendendo, se renovando, como você conseguiu se manter conectado com seu propósito — ou seu propósito foi mudando ao longo dessa jornada?

É interessante isso, porque eu não sinto que mudou o propósito, mas sinto que fui encontrando novas lentes para ver o mesmo propósito. Vou dar um exemplo: a minha grande preocupação em gerar impacto social, que eu mencionava quando entro e tô na Amazônia me relacionando com as comunidades extrativistas, eu vejo o impacto nessa ótica. Logo depois, quando vou trabalhar com os fundadores, numa parte em que eu viajava com eles para todos os lados, fazia apresentação, escrevia discurso, eu me conectava desde entender que os fundadores da empresa tinham a essência de uma maneira tão profunda que eu falava: isso faz sentido para mim.

Essa essência da sustentabilidade, de pensar no impacto positivo também ambiental — quando os fundadores têm essa preocupação, para mim isso é muito legítimo e muito genuíno, e me conectava com o meu propósito. Depois, por exemplo, quando eu tava na Colômbia trabalhando já na área comercial, eu tinha contato com todas as líderes, as consultoras, que são independentes mas eram milhares de pessoas, e eu tinha acesso à história de transformação na vida dessas pessoas — e aí eu percebia esse impacto positivo.

Assim, eu sempre fui me conectando desde outra perspectiva, mas o propósito continuou o mesmo. E isso não quer dizer que não tive momentos de crise, de virar e falar: 'gente, isso que eu tô fazendo aqui agora me distanciou do meu propósito'. E aí foram esses momentos que eu tive que pressionar — no bom sentido — para buscar algo que me reconectasse com o meu propósito.

Nessa hora você busca uma mudança de carreira dentro da própria empresa, ou era alguma coisa diferente? Na minha carreira, acabou sendo dentro da própria empresa, mas eu nunca deixei de admirar e olhar para fora, ver outros exemplos possíveis. Nunca aconteceu de eu sair, porque era a cada três anos que eu tinha essa possibilidade de aprender o novo — isso é parecido com o que a gente vai falar daqui a pouco sobre o esporte: essa curiosidade de fazer coisas novas não é só da carreira, é algo que faz parte da minha essência.

Você conseguia permanecer verdadeiro ao seu propósito, mas adquirindo novas lentes para ressignificar o valor ali dentro, se reconectar e ver de outra maneira. Você sempre guiou a sua carreira baseada no seu propósito, ou ela foi acontecendo, como na maioria dos casos, em que se vai buscando e melhorando mas muitas vezes as pessoas não têm um propósito ali? Você sempre moldou a carreira em torno do propósito, ou foi acontecendo naturalmente?

Acho que foi sempre desde o propósito, até pela escolha da empresa, num primeiro momento. E eu tenho uma história engraçada, que conto pro meu primeiro chefe: quando fiz o processo seletivo da Natura, era estagiário, e eram aqueles processos com 20 mil pessoas participando, mais de três meses. Lembro que fiz de duas empresas — e falo isso abertamente porque admiro as duas: fiz o da Natura e o da Unilever, com motivos diferentes.

O da Unilever era porque eu também — e mantenho isso — tinha um sonho de viajar o mundo, porque a Unilever tava em todos os países, e eu pensava: será que um dia eu vou conseguir ser expatriado, vou poder conhecer outras culturas? A Natura não tinha isso — naquele momento, era 95% do seu negócio no Brasil. Eram motivos diferentes. Por sorte, desempenho etc., passei nos dois processos, e recebi a proposta primeiro da Unilever, e fiquei super feliz, uma super empresa. Uma semana depois recebi a da Natura.

Você ficou na dúvida? Fiquei muito na dúvida. Conversando com meus pais, com meus irmãos, com todo mundo, falei: o que me conecta com o propósito, com aquilo em que acredito, com aquilo que estudei na universidade? E, naquele momento, decidi pela Natura.

Se você olha pela ótica de uma empresa brasileira que tem um impacto social como a Natura tem, e ambiental também, trabalhar com vendas diretas é, como outras empresas do Brasil que fazem isso, às vezes garantir um prato de comida na casa que não tem condição. E, agora já não estando na Natura — e enquanto eu estava lá, isso não quer dizer, e eu concordo 100% com tudo que você trouxe, que todas as empresas, incluindo a Natura, não tenham os seus desafios e dilemas éticos em relação ao seu propósito e à sua essência.

Quando você traz isso das consultoras, é muito certo: a Natura hoje tem mais de um milhão de consultoras sendo impactadas positivamente. Isso não quer dizer que não haja uma grande oportunidade de que esses impactos sejam muito maiores, porque, querendo ou não, o crescimento da Natura ao longo desses últimos 55 anos se deu por essas pessoas — porque elas não só construíram os seus sonhos, mas construíram o sonho da Natura.

A Natura tem um compromisso ético e moral com essas pessoas, e nem sempre isso se deu na escala e no impacto que se podia dar. Meu ponto é que precisa ser o grande desafio da Natura. Agora, estando fora, posso falar de uma maneira tranquila, olhar o futuro e ver como se pode ainda mais gerar esse exemplo. Mas isso também é uma reflexão para todos, independente do trabalho que você exerce: na empresa em que você está, você tem que achar o propósito.

Hoje eu estou responsável por uma empresa que trabalha com telecomunicações, e a gente fala isso para todos os profissionais: se um link de dados para de funcionar numa recepção de hospital, a gente tem um impacto muito grande — imagina uma cirurgia que depende de internet. Então é identificar aonde você tem o propósito e fazer aquilo valer a pena.

Privilégio, ego e a crise existencial corporativa

O que me chama atenção na história do Filipe é que, desde cedo, ele tem claro qual é o propósito dele — exatamente qual é o impacto que ele quer causar no mundo. E você fez uma boa menção: olhando pro público de hoje, você vê alguns jovens trabalhando porque precisam do dinheiro, única e exclusivamente. E aí tem vários desdobramentos disso, como insatisfação, não desejar crescer na carreira, não querer ampliar esse impacto, porque não vê esse impacto, não imagina isso.

Na verdade, acho que as pessoas não pensam em qual é o seu propósito — deixam para pensar isso numa fase muito madura da vida. Você amadureceu rápido ali; na sua juventude já tinha isso bem definido. Mas, em termos gerais, o pessoal só vai começar a pensar nisso lá perto dos 40 anos, quando adquire um pouco mais de maturidade e vê: qual é o meu propósito, por que eu tô aqui? Quando você chega numa certa idade, tem a crise existencial — o que eu tô fazendo nesse mundo, o que eu quero aqui. Você teve isso bem jovem; poucas pessoas têm isso.

Acho que é um grande, talvez, desafio nosso como sociedade: se colocar essas perguntas não só nos momentos de crise existencial, mas às vezes essas crises nem são só existenciais — às vezes a gente começa a refletir quando tem algo mais grave com alguém que tá próximo, algo de saúde, e aí começa a repensar. É uma tendência nossa, como sociedade, deixar isso adormecido até esses momentos, e às vezes já é tarde.

A gente tá falando de carreira, mas você deixa a sua carreira — e mais que a carreira, deixa a sua vida passar de uma maneira talvez cômoda, com suas relações, com a maneira como lida com o corpo, com a questão do esporte ou de outras coisas que pode fazer ao longo da vida. E, quando você for ver, já passou o tempo, e é um pouco tarde para conseguir fazer algumas escolhas — você só tem um clique quando a vida tá começando a escorrer pelas mãos.

Isso também não quer dizer... acho que esse é um ponto muito importante: a gente, sendo brasileiro, falar disso é um privilégio. A gente sabe que tem muita gente que, de fato, precisa do trabalho para o dia a dia, para alimentar a família. Então eu sempre também tentei me colocar pensando, na perspectiva do impacto social positivo, em ser consciente do privilégio que tive de poder estudar, de ir para uma universidade que me permitiu fazer essas reflexões — mas sendo também muito consciente de que metade do nosso país, ou mais, não teve essa oportunidade.

O meu papel, como liderança, estando em empresas ou não, é: o que posso fazer para incentivar mais pessoas a pensarem no seu propósito? E, quando a gente tem uma iniciativa como a de vocês, de falar do ambiente corporativo, de empreendedorismo, para mim é muito disso: vocês se colocam no papel de levar a mensagem para mais pessoas. Acho super bacana a iniciativa.

E olhando para esse público que pode ser um empreendedor que tá ouvindo a gente agora, que não parou ainda para fazer essa reflexão de propósito porque a situação dele nunca permitiu — ele nunca teve esse privilégio de parar e refletir, até porque o impacto imediato que ele vê é o sustento da família — qual mensagem levar para ele?

Eu acredito muito que não importa qual é a indústria, qual é o negócio: todas as empresas podem e devem nascer a partir de uma causa, de um porquê — e esse porquê, para mim, é esse propósito. Não importa a indústria, não importa o tamanho, não importa se você é uma empresa nascendo ou um podcast: qual é o propósito, por que a gente tá fazendo isso? Numa perspectiva de negócio, assim como no olhar pessoal, acredito que sempre deveria existir esse propósito.

Mais do que isso: acredito muito que os propósitos mais intensos, mais profundos, são aqueles que refletem as necessidades da sociedade. Um propósito não é só nosso como empresa — é aquilo que a sociedade necessita. Esses propósitos são os que vão gerar mais impacto. Sempre falo que, se você olha um negócio e entende que ele nasce de um desafio ambiental ou social, esse produto vai ter muito mais potencial de gerar transformação do que outro.

Todos os produtos podem ter esse filtro: isso é uma necessidade social, ou pode gerar um impacto ambiental? Às vezes a gente acha que a tecnologia não pode gerar isso, mas tem milhares de exemplos de inclusão social. É olhar a parte social e ambiental como oportunidade de negócio — não é à toa que a Natura é a empresa que é, mas tem várias outras.

Falando de montanha, tem várias marcas — tem uma que eu adoro e amo: a Patagonia. É uma marca que ainda não tá no Brasil, mas é referência no mundo todo; é uma empresa de roupa, com um propósito muito claro, e o como eles enxergam esse desafio ambiental dentro do negócio. Tem vários exemplos, e, para mim, esses são os mais fortes.

Produtos digitais e transformação cultural na Natura

Agora, compartilha um pouco pra gente sobre essa reta final na Natura, onde você trabalhou com produtos digitais — porque você vem se desafiando a cada três anos, e chegar a trabalhar com produtos digitais, nesse mundo de tecnologia, geralmente para muitas pessoas é uma caixa preta. O que você encontrou?

Talvez eu não tenha encontrado uma caixa preta, mas encontrei um desafio enorme, numa empresa já do tamanho da Natura. Nesse momento, inclusive, quando a área de produtos digitais e o processo de transformação digital começa a ter mais força — já tinha, inclusive, a própria Avon. Não encontro uma caixa preta, mas encontro um desafio enorme de transformação, mais do que digital, cultural, de um modelo de negócios de 50 anos, agora já com 55.

É diferente de outras empresas que já nascem digitais. Quando a gente olha exemplos como o iFood, outra marca brasileira que eu admiro muito, ela já nasce com essa cultura. No caso da Natura, vim para essa área justamente porque tinha conhecimento da parte comercial, da parte de negócios, que é uma transformação necessária.

Quando a gente olha o modelo conhecido, muitos anos atrás, como porta a porta, venda direta, isso precisa ser transformado. A Natura, e todas as empresas de venda direta, precisam sair desse modelo tradicional da 'revistinha' e ir para o digital. É uma transformação gigante, porque envolve pessoas: aquelas consultoras, aquelas vendedoras, que muitas vezes já estão digitalizadas, mas quem não está digitalizado é a empresa, são os processos.

Participar dessa transformação foi incrível, aprendi muito, nunca tinha trabalhado na área digital. E, além disso, um desafio de modelo de trabalho que também é uma transformação cultural — uma mudança de paradigma: de como se trabalha numa metodologia ágil, com diferentes expertises dentro do mesmo time, como se diminuem as hierarquias existentes em modelos tradicionais.

Isso, numa empresa já com 15 mil colaboradores, é super complexo, e obviamente não terminou — é uma jornada que vai durar anos e anos, muito diferente de empresas que já nascem digitalizadas. Adorei, acho que foi super bacana. Mas é mais do que um Ironman — se fosse falar do Ironman, eles ainda estão terminando a natação, ainda falta toda a bicicleta e toda a maratona.

Você tirou toda a minha pergunta — eu ia perguntar se era mais difícil trabalhar com produtos digitais ou escalar o Everest. Mas, hoje, aonde mora o coração do Filipe: em produtos digitais, no comercial, em vendas, no estratégico, em Ciências Sociais?

Acho que meu coração mora ainda no meu propósito. E talvez o meu propósito — mais do que mudar, eu tenha aprofundado a leitura, numa perspectiva que foi crescendo ao longo da carreira, que é a questão da liderança. Meu coração mora em poder trabalhar com algo — e esse algo não precisa necessariamente ser empresa — mas que eu possa ter um impacto positivo, social, ambiental, conectado com uma causa, mas também com o meu lado pessoal, com o meu coração.

E o que é isso? É um estilo de vida saudável, um equilíbrio entre o profissional e o pessoal, mas que eu possa também influenciar outras pessoas para que tenham esse estilo. Ao longo da minha carreira, quando fui tendo equipes, eu ficava muito mal, pessoalmente, quando via que alguém do meu time não tinha um equilíbrio de vida — porque eu falava: se eu priorizo isso e consigo escalar montanhas ao longo de dez anos e equilibrar, o meu compromisso, sempre, era influenciar isso também nas pessoas do meu time.

O meu coração tá nesse lugar de poder levar essa mensagem para mais e mais pessoas. Por isso, quando vocês me convidaram para vir aqui, eu falei: hoje eu vou a qualquer lugar que eu possa levar esse meu sonho, essas minhas crenças — eu vou estar lá, porque isso faz parte do meu propósito, e sai do meu coração de uma maneira muito genuína.

Liderança de influência: a lição dos Sherpas

É um papel de liderança, né?

É liderança. Mas é uma liderança — e é por isso que aprendi, talvez mais nos últimos anos — que não é hierárquica, é uma liderança de influência. Vou dar um exemplo, já conectando com as montanhas: nas montanhas, e principalmente no Himalaia, a gente sempre escala, ou na grande maioria das vezes, com os Sherpas.

Os Sherpas são uma etnia de uma região do Tibete que, quando foi invadida pela China, migrou para o norte do Nepal. São reconhecidos pela performance e pela capacidade de escalar em altas altitudes — estudos mostram que têm uma maior capacidade de conviver acima de 8.000 metros. Os que montam o acampamento fazem tudo na montanha: desde ajudar a transportar os cilindros de oxigênio para os acampamentos altos, até a parte da cozinha, da logística.

Grande parte desses Sherpas trabalha em altas montanhas, carrega bastante peso, pode socorrer, levar uma pessoa — são incríveis. Posso falar de maneira tranquila que 98%, 99% de todas as pessoas que escalam alguma montanha de 8.000 metros só escalam por um Sherpa.

Uma das coisas que admiro muito neles — e já vou voltar para a liderança — é que é um trabalho em que eles arriscam a própria vida para ajudar outras pessoas a realizarem os seus sonhos. Esse é o propósito de um Sherpa. Óbvio, tem uma relação comercial: o que ganham numa temporada é acima da média salarial do país, então têm uma escolha comercial também, um benefício.

Mas por que eu coloco isso? Porque essa liderança dos Sherpas: eles não são hierarquicamente maiores do que os clientes, mas você tem uma admiração, e depende deles. E o papel deles é ajudar outras pessoas a realizarem os seus sonhos. Então, quando você me fala de uma liderança — sim, é uma liderança, desde que o meu papel seja poder ajudar outras pessoas a realizarem seus sonhos e influenciar, transformar isso.

Pra mim, é o grande — liderança pode ser a pessoa que é analista, o estagiário, todos têm um papel de liderança. Todo mundo depende de algum Sherpa. Ao longo da minha carreira, tive vários Sherpas na Natura: pessoas que admiro muito, que me ajudaram muito. E, quando eu era gerente júnior, respondia diretamente pro CEO da época, que era o Alessandro Carlucci — que muitas pessoas desconhecem — e ele me tratava de igual para igual.

Sempre aprendi muito com os Sherpas da montanha, como também aprendi com as consultoras da Natura, quando ia fazer trabalho de campo: aprendia muito com elas de estratégia de vendas, que depois eu trazia e tentava replicar para outras consultoras. Acho que todo mundo depende de outros Sherpas, mas todo mundo é Sherpa de alguém.

Esse tipo de atuação de liderança tende a causar muito mais impacto nas pessoas do que aquela liderança imposta, porque ocupa uma posição hierárquica. Mas a maior parte dos líderes não consegue entender isso a princípio, e busca sempre uma posição de se fazer valer pela hierarquia, ao invés de causar esse impacto. Aonde está o erro?

Para mim, o erro — e talvez não seja o erro, mas também é uma condição nossa como sociedade, e talvez isso esteja, ou estará, cada vez mais complexo com a questão das redes sociais — passa pela questão do ego. E eu volto para os aprendizados da montanha: na montanha, você nunca, por mais que esteja pronto, que tenha se preparado muito, treinado, escalado outras montanhas, sempre vai depender do que eu chamo de imponderável — uma avalanche, você cair numa greta.

Você fica muito aberto para a vulnerabilidade de saber que não é o melhor ali; quem decide tudo é a montanha. E, por outro lado, na montanha sempre tem altos e baixos — não só do cume, de você descer, mas momentos que você tá bem, momentos que não tá. Aprendi muito isso, de estar aberto a essa vulnerabilidade.

Para te responder: para mim não é um erro, ou talvez seja, quando, nas nossas organizações, e a gente como sociedade, coloca tanto peso no ego — um ego partindo do que a gente acredita que as pessoas vão ver na gente. É difícil, às vezes, pedir ajuda, admitir que a gente não sabe.

Felizmente ou não, já que tive que, a cada três anos, ir mudando na minha carreira, eu chegava numa posição, no início, em que as pessoas conheciam muito mais do que eu, porque eu não sabia nada — geralmente é assim. Quando cheguei em produtos digitais, falava para mim mesmo: não sei nada aqui. Tinha que me colocar numa posição de aprender, mas de assumir que não era o melhor ali, mas que poderia ajudar, talvez, com outros conhecimentos.

Acho que o que a gente tem, cada vez mais, como sociedade, como organizações, é o ego pesando mais — esse é o erro. Acho que a insegurança tem um pouco da tradição do antigo gestor pro novo modelo de gestão: aquele gestor que já vem da década de 70, 80, com uma sistemática de criação muito hierárquica. 'Você faz e não tem uma discussão, não foi criado aqui' — meu pai chegava e falava assim; é outra geração, outra criação.

Com inteligência artificial, ou a gente dá esse salto como sociedade, ou isso vai começar a acontecer com as máquinas — vamos ter o desafio de lidar com uma inteligência artificial sabendo que ela vai saber muito mais do que a gente. A gente vai saber outras coisas — talvez a gente reconheça mais as pessoas que saibam de ética, de filosofia, que saibam se relacionar. Isso vai ser muito mais importante do que a base de dados. Isso vai chegar pronto pra gente.

Isso é interessante, porque geralmente uma pessoa que assume posição de liderança — eu já me vi muitas vezes nessa posição — parece que todo mundo espera que você saiba fazer tudo, que saiba tudo que é certo, quando, na verdade, você não sabe, acabou de chegar, tem que descobrir, tem que aprender. O pessoal que já tá fazendo aquilo sabe mais que você. Mas você parece se sentir preso numa projeção de uma ideia de si mesmo que te obriga isso. E colocar esse ponto da inteligência artificial é interessante, porque a gente tá chegando numa era em que o conhecimento passa a ser commodity.

Esse tipo de conhecimento — outros conhecimentos a gente vai... espero que a gente, também como sociedade, comece a reconhecer mais aqueles que ficaram um pouco de lado do mundo corporativo: coisas como arte, a importância que se dá ao autoconhecimento, à relação com o corpo, com a natureza — coisas que antes algumas empresas não davam o valor necessário.

A gente vive uma época de ansiedade, isso vem causando burnouts, as pessoas ficam estressadas justamente por esse tipo de cobrança. Às vezes buscam tanto um retorno, buscam tanto que a pessoa seja completa — e ninguém é 100%, senão seríamos extraterrestres. Chega uma hora que há necessidade de desacelerar.

Sinto que, às vezes, a gente tem que fazer boas escolhas: entender que metade do seu tempo você tem que reservar para cuidar do seu físico, do seu mental, dar cuidado à família, e também ao trabalho. Você tem que equilibrar bem essas coisas, aproveitando esse momento.

Ano sabático e a preparação de 10 anos para o Everest

Entrando no tema do ano sabático que você tirou: quando a gente reflete sobre ano sabático, as pessoas geralmente pensam que foi tirar um descanso no Tibete, junto com os monges. Na verdade, você acelerou — guinou ali um sprint, tirou um tempo para se preparar para ir ao Everest, a maior montanha do mundo. Conta um pouquinho pra gente: de onde veio essa ideia de tirar um período sabático?

O meu processo de chegar nesse momento do sabático sempre esteve associado aos meus sonhos pessoais, que pude, sim, ao longo da carreira, ir realizando. Mas eu sempre soube que, em algum momento, para uma escalada do Everest, precisaria de muito tempo, muito planejamento e muita dedicação pessoal.

Chegou o momento na Natura em que, com a fusão e tal — e falo isso de uma maneira muito aberta — o processo de decisão não partiu de mim, mas, no dia seguinte, eu já tinha a minha decisão do sabático. Essa foi a minha decisão. E, outra vez sendo muito consciente dos privilégios que tenho, naquele momento decidi: ficarei um ano dedicado a esse sonho de escalar o Everest.

Na verdade, é um sonho que nasceu muito antes — e eu gosto da questão dos números — exatos dez anos antes. Fui, em 2014, junto com um Sherpa, para a base do Everest, num trekking, uma trilha. Naquele momento, quando chego na base e consigo ver o Everest lá de baixo — a base tá a 5.300 metros — eu não fazia nada: jogava futebol de segunda-feira, não treinava ainda.

Naquele momento você não era atleta de alta performance — meu atletismo era jogar futebol de segunda-feira e balada de final de semana, era isso que eu fazia. Eu tinha acabado de chegar na Colômbia, e fui pro Nepal fazer essa trilha. Falei: será que eu poderia escalar a montanha mais alta de cada um dos sete continentes? É um projeto conhecido, que muito poucas pessoas fazem — mas eu não escalava, não fazia nada, não sabia escalar nada.

Começou tudo ali: primeiro, essa foi a visão — naquele momento construí essa visão, muito clara, um sonho muito concreto, não era simplesmente 'ah, um dia eu vou escalar'. Eu sabia o que queria escalar. Não tinha pressa, mas ia construir um planejamento, que foi a segunda etapa: comecei a escalar essas montanhas pelas mais simples, um planejamento incremental, até chegar no momento em que pude escalar o Everest.

Isso foi de um ano para trás, ou mais tempo? Quando você começou?

Isso foi dez anos atrás. Dez anos atrás eu já sabia que um dia escalaria o Everest. Mas, voltando pro sabático: para escalar o Everest eu precisaria desse tempo e dessa dedicação específica, porque as outras montanhas eu sempre consegui conciliar.

Fui escalando — já tinha escalado quatro das sete, agora com o Everest, cinco: o Elbrus, na Europa; o Kilimanjaro, na África; o Aconcágua, aqui na América do Sul; e o Denali, no Alasca. Além dos cursos que fiz, tive que escalar montanhas de gelo antes para conseguir escalar o Denali — teve toda uma preparação para a montanha, mas também física, psicológica, e financeira, porque o Everest é caríssimo.

Me planejei financeiramente para, um dia, poder chegar sem ajuda de nenhuma marca, sem herança, sem nada — ao longo dos anos, investi parte desse recurso nesse meu sonho. E, para fechar com o sabático: além disso, depois de 19 anos, eu sabia que o meu próximo passo — que ainda não sei qual vai ser, já tenho pensado — precisaria de um break, uma licença, para poder repensar, para me desconectar de uma empresa que me deu muitas coisas, mas que já não seria mais aquele momento.

E o que melhor do que passar um ano me dedicando a isso? Nesse ano, fiquei meses no Vietnã atravessando o país de bicicleta, fiz várias coisas.

Não passa breve por essa história, conta aí! Ou seja, você ficou um ano se preparando para conseguir subir?

Sabe que, quando as pessoas me perguntam quanto tempo me preparei pro Everest, eu não respondo 'um ano', respondo que foram dez anos de jornada. Com um ano, primeiro, eu não chegaria financeiramente preparado, fisicamente preparado, porque comecei a fazer triathlon, comecei a correr depois daquela trilha, dez anos atrás.

Foram dez anos: comecei fazendo meio Ironman, depois fiz Ironman, comecei a fazer corrida de 5 km, 10 km, depois maratona, depois ultramaratona. Tudo isso faz parte do processo da jornada, e eu nunca perdi de vista o Everest, mas desfrutei de todo o processo, e sempre o que eu tinha naquele momento era o meu Everest daquele momento — celebrava cada conquista.

Quando subi o Kilimanjaro, uma montanha muito mais simples, na África, para mim, naquele momento, aquele era o meu Everest — celebrava muito aquela conquista. Teve isso também ao longo desses dez anos, mas foram dez anos de preparação.

Esporte e trabalho: a mesma disciplina

Como você consegue conectar o esporte ao trabalho? Qual a relação que essas duas vertentes têm na sua vida?

Para mim, as duas coisas estão super próximas, porque mais do que esporte, é o meu estilo de vida. E, quando falo estilo de vida, é o Filipe — o Filipe é a mesma pessoa, o colaborador é o mesmo, e os meus valores também. Quando eu fazia, e continuo fazendo, mais triathlon, e treinava pro Ironman, tinha dias que acordava às 3 da manhã, pedalava 100, 150 km, terminava às 7 e ia pro trabalho.

Essa dedicação é a mesma que eu tive e tenho quando estou no trabalho, porque tô ali me dedicando a aprender algo novo. Quando cheguei em produtos digitais, ficava vendo, assistindo podcast, lendo, porque queria aprender — era uma dedicação. A competência, a disciplina, é a mesma, seja pro esporte ou pro trabalho.

A outra coisa que conecto também é a questão do desafio: comecei escalando montanhas menores, só que tinha um desafio, queria ir aumentando esse desafio — o mesmo com a corrida, com o triathlon, e na minha carreira. Não é o desafio por si só, porque eu gostava, sim, de ter coisas mais complexas, poder liderar equipes maiores. Sempre tive essa necessidade de me desafiar, e às vezes conseguia chegar no cume de alguma montanha, e às vezes não — você aprende nesse processo.

Mas a disciplina: você sempre foi um cara disciplinado, ou o esporte te ajudou a ser mais disciplinado? O que veio primeiro?

Acho que não tenho dúvida de que você desenvolve — e desenvolvi grande parte das competências — mas algumas coisas vêm de personalidade. Quando você fala de disciplina, talvez sim: quando eu era pequeno, sempre fui disciplinado, então parte vem disso. Mas outras competências fui aprendendo — por exemplo, quando comecei a fazer triathlon, quando era pequeno eu não nadava; aprendi, melhorei muito minha natação já mais velho, com 30 anos retomei a natação.

A mesma coisa quando fui aprender produtos digitais, ou negócios — minha formação é Ciências Sociais, não tive matérias de negócio, marketing, cálculo, nada disso. Desenvolvi essas competências ao longo da carreira. Depende da competência: parte você é beneficiado pela sua característica e formação pessoal, como foi criado pelos seus pais, e parte vem ao longo do tempo. Mas acredito muito que toda competência você consegue desenvolver com tempo, com dedicação.

Teve um dos papos que nós tivemos em que você comentou uma coisa que me impactou muito: você falou que, uma vez, numa montanha, tinha uma pessoa tentando desistir, e vocês não desistiram dela — ficaram esperando ela se recuperar, e comentaram que a levariam nas costas. Essa relação de ajudar uma pessoa no momento de dificuldade é também uma relação que você tem que levar pro meio corporativo, porque você não entrega sozinho — entrega o resultado com a ajuda de muitas pessoas.

Às vezes esse tipo de exemplo, quando trazido para o meio corporativo, é entender que tem pessoas com dificuldade, e que, às vezes, você está com o conhecimento, com o estado de espírito melhor, e pode engajar essa pessoa a chegar no resultado. Gostei muito desse trecho — não sei se foi no último episódio, num podcast que você participou, mas você citou essa relação.

Acho que é o que você falou: ser consciente de que, às vezes, a gente vai estar bem, às vezes não. Depende muito do momento, e todo mundo pode ter esse papel. Acho que o importante é a gente ser empático — e ser generoso.

Se você me pergunta, voltando à questão da inteligência artificial, a gente precisa muito, no mundo corporativo, dessas características: pessoas que se coloquem no lugar das outras, que queiram entender não só na perspectiva da necessidade do consumo, mas na perspectiva da necessidade da sociedade. Ter essa empatia com o outro — seja com um colaborador do seu time, ou com um colaborador da fábrica, uma consultora, um entregador de aplicativo.

É possível equilibrar as forças: talvez, em algum momento, eu esteja melhor, mas também há um momento em que vou precisar de ajuda. E a montanha também traz isso de uma maneira muito genuína, porque ali, diferente das empresas, é, em alguns casos, uma questão de vida e morte.

Você precisa, em alguns momentos, deixar o seu de lado, porque vai ajudar alguém. Tem várias histórias na montanha assim: você abre mão de chegar num cume, ou de fazer o que precisa fazer, porque, naquele momento, vai se dedicar a ajudar alguém que, sem a sua ajuda, talvez morra na montanha. A montanha não te dá a escolha disso — ou melhor, traz a escolha, mas depende dos seus valores: naquele momento, você não vai escolher, você vai saber o que precisa fazer.

"O topo é para o ego, a jornada é para a alma"

Você citou uma frase, na nossa reunião de briefing, que achei linda — acho que vou tatuar: você falou que o topo é para o ego, e a jornada é pra alma.

Teve uma vez que eu estava no Denali, uma das montanhas mais difíceis dos 7.000 — a gente fez uma preparação nessa montanha, no Rainier, fazendo curso de gelo, e não conseguimos chegar no cume porque tinha risco de avalanche. Naquela nossa questão do ego, desci super frustrado: fiquei ali três semanas, gastei um dinheiro, gastei minhas férias, porque tava me preparando para esse sonho de longo prazo.

Um guia me viu frustrado, e me contou que, um dia, estava justamente no Nepal, e um Sherpa falou essa frase para ele: 'o cume é pro ego, e a jornada é pra alma'. Isso serve muito, voltando pro mundo corporativo: quando a gente fala da jornada, para mim é muito sobre quais foram, ao longo da nossa carreira, aqueles momentos em que tivemos que pensar nos nossos valores, e ser consciente de que não estamos abrindo mão desses valores, não importa a situação.

No final da nossa vida, não tenho dúvida de que vou lembrar do Everest para sempre — mas não vou lembrar do cume, vou lembrar do que me fez chegar até ele: as pessoas que estiveram comigo, a minha preparação, minha resiliência, os dez anos, o meu Sherpa. É disso que vou lembrar: dos sentimentos que tive, das pessoas que estavam ali comigo, que também chegaram no cume, e fiquei super feliz, admiro muito todas elas.

O cume ficou pro meu ego — se um dia eu escrever um livro, vou falar que o cume foi uma consequência da jornada. A jornada me dá muito mais orgulho do que o cume. E também não quero parecer hipócrita, mas, assim como eu jogava futebol de segunda-feira, todo mundo pode chegar, e nem todo mundo vai querer escalar o Everest — mas todo mundo tem o seu Everest, e os Everest podem ser diferentes para cada um.

Alguém que tá lutando com uma doença de um familiar, ou com uma situação financeira complicada — esses Everest são igualmente importantes — ou que tem um sonho, tipo 'meu sonho é ver meu filho se formar', para mim isso é tão importante quanto o meu Everest. Admiro todos esses sonhos, e talvez o meu propósito seja esse: conseguir fazer com que mais pessoas tenham os seus próprios Everest. Pra mim, isso é o que mais me mobiliza.

Aconcágua: a experiência de quase morte que mudou tudo

Conta uma coisa pra gente: de todas as montanhas que você escalou, qual foi a maior dificuldade, que te transformou, te deu um clique que mudou alguma coisa na sua vida?

Talvez tenha sido uma experiência que foi a que mais me aproximou da morte. Não querendo trazer a conversa pro lado pesado, mas, quando eu estava no Aconcágua, na Argentina, que tem quase 7.000 metros, a gente chegou no cume, celebramos, e éramos quatro. Descendo, encontramos uma pessoa que estava sozinha, no chão, desmaiada.

A gente olhou os sinais vitais — tava vivo ainda. A gente tinha demorado 12 horas para subir, então estava esgotado. Olhamos o oxímetro, e ela estava saturando super baixo, em 60%. Passamos um rádio pra base — os helicópteros não chegam nessa altura, estávamos a 6.800 metros.

O pessoal falou pra gente: 'vocês precisam tentar tirar essa pessoa daí, ou ela vai falecer'. Naquele momento, o cume já não era o mais importante — importante era tentar tirar essa pessoa dali. Resumindo a história: de fato conseguimos tirá-lo, descer até o campo 3, onde foi resgatado por helicóptero.

Mas por que foi talvez a experiência mais transformadora, e ficou muito marcada em todas as montanhas depois — obviamente no Everest você vive isso de uma maneira muito intensa — é que a montanha faz com que você esteja 100% presente todo momento, algo que, na nossa vida no dia a dia, a gente esquece: fica ali multitasking, fazendo várias coisas, mexendo no celular. Lá você precisa estar presente, porque, senão, pode ter um acidente e morrer.

Essa presença é, ao mesmo tempo, uma consciência da nossa vulnerabilidade — de que, a qualquer momento, a gente pode morrer. Mas isso não é só na montanha, pode acontecer aqui, indo para casa. Essa proximidade, de uma maneira tão intensa, me fez pensar sobre o que eu tô postergando da minha vida, quais são esses sonhos.

Comecei a dar mais intensidade para isso, porque ninguém me garante que vou estar aqui amanhã, e talvez, um dia, eu não tenha mais a oportunidade de ir pro Everest — seja porque não vou ter condições financeiras ou físicas, seja porque vou ter que estar ajudando alguém em outra coisa da vida. Quando surgiu o momento da saída da Natura, falei: é o momento.

Não quero passar o tempo e olhar para trás e falar: 'eu tive a oportunidade de tomar essa decisão de cumprir um sonho, escalar o Everest, e não fui'. Isso eu tento manter vivo na minha vida: viver intensamente cada momento, cada sonho que você tem consciência.

Exato, porque, no final das contas, a gente tá aqui para isso — para cumprir os sonhos, não importa quais sejam. Mas refleti muito, ao longo desse ano, que seja o nosso sonho, não o sonho dos outros. Quando falo dos outros, pode ser a família, o seu marido ou a sua esposa — você pode projetar o sonho de outros pra sua vida, às vezes até o sonho da empresa em que trabalha.

É sempre o momento de se perguntar: mas esse é o meu sonho também? Às vezes pode ser, mas nem sempre. Que triste seria terminar a vida olhando para trás e vendo que você cumpriu o sonho dos outros, e não o seu. Isso também me faz pensar muito pro futuro: o quanto eu, além de poder ajudar outras pessoas a realizarem seus sonhos, estou realizando os meus.

Sozinho de bicicleta atravessando o Vietnã

Você teve um clique desses subindo uma montanha. Fico pensando no que fazer para que as pessoas consigam ter um clique desses em algum momento da vida sem ter que subir uma montanha — assistir ao podcast Mundo da Lua, ou, tomara que não, sem precisar estar perto dessas situações mais complexas, que podem acontecer a qualquer momento. Chamam isso de experiência de quase morte, porque muitas pessoas acabam tendo esse tipo de proximidade com a morte por uma doença, às vezes bem tarde da vida.

Justamente, você falou bem rápido, e a gente falou que não ia deixar isso passar: que história é essa de atravessar o Vietnã de bicicleta?

O bom do triathlon é que eu brinco que tenho a oportunidade de ser ruim em três esportes, não é só um — então eu tenho chance. Um dos esportes é o ciclismo, e eu adoro bicicleta, amo bicicleta, porque sinto muito isso; também faço corrida, mas na bicicleta as longas distâncias voltam pro conceito de jornada: ir de um lugar ao outro só com a sua própria força, para mim é muito simbólico.

Talvez tenha algo que me conecte com os nossos antepassados, quando faziam as migrações — sempre adorei essa questão de ir de um lado pro outro só andando, com bicicleta. Na faculdade, estudando sobre a Guerra do Vietnã, surgiu um dia essa ideia: ir pro Vietnã de bicicleta, fazer a travessia. Naquela época nem pedalava.

Fui de Hanói a Ho Chi Minh — são quase 2.000 km, como ir de São Paulo à Bahia de bicicleta. Adorei, porque tem uma história dos soldados que faziam esse percurso, é a rota Ho Chi Minh, então tem toda uma história por trás. Mas o que mais amei, e acho que o que permite essas travessias, é a questão cultural e da relação.

Eu passava por povoados no Vietnã que os turistas ocidentais não passam. Lembro de vários momentos: passando na porta de uma escola na saída, as crianças, que têm umas motinhos elétricas, me seguiam uns 3 km, ficavam me dando tchau, filmando — isso é uma das histórias, além de chegar num povoado onde todo mundo olhava 'o que esse cara tá fazendo aqui', ter que negociar minha comida, ver onde ia dormir.

Para mim, a questão da relação, da cultura, faz com que a gente volte — e isso acontece na montanha também — a valorizar aquelas coisas que a gente dá como um fato. Na montanha você não tem água potável, precisa descongelar o gelo para ter água, não tem chuveiro, não tem banheiro. Às vezes a gente acha que isso é um dado, e esquece que tem dois bilhões de pessoas sem acesso a isso.

Lá na montanha, ou no Vietnã, você começa a ter essa consciência. Adoro esses momentos, essas jornadas em que você quebra alguns paradigmas, retoma e começa a dar valor pro essencial — que é a relação, é entender que nem tudo é dado, e que nem todo mundo tem acesso. Adorei essa viagem, e já tô planejando outras travessias.

Você fez sozinho? Fiz sozinho. Levei a bike daqui de avião, cheguei lá — lembro do primeiro dia saindo de Hanói, parecia meu primeiro dia de aula no colégio.

Larguei, pedi pro pessoal do hotel guardar minha mala, porque tinha a mala da bicicleta, e falei que ia voltar em um mês, quando ia encontrar minha esposa. Eles ficaram surpresos: 'um mês? Como assim?'. Quando viram a bicicleta, a recepcionista perguntou pra onde eu ia; falei: pra Ho Chi Minh, uns 2.000 km.

Ela pediu pra tirar uma foto comigo, disse que claro que guardava minha mala, e começou a me dar dicas de cidades no caminho — foi incrível. Fui sozinho, e acho que essa é a parte legal: você nunca tá sozinho quando viaja sozinho; talvez tenha até mais oportunidade de conhecer pessoas, porque precisa entrar em contato com alguém.

Sempre adorei, desde moleque, essas viagens sozinho, esses lugares diferentes, conhecer outras culturas — sensacional. Mas é preciso ter consciência de corpo e segurança para fazer uma viagem dessas, porque, se acontece algum acidente, às vezes você tá num lugar remoto, e é complicado.

Os próximos cumes e o que vem depois da Natura

Parabéns aí, viu. E qual é a próxima sprint pro futuro — já falando de questões profissionais e pessoais que você traçou para esse restinho de 2024?

Vou começar pelo mais fácil, o pessoal: tô treinando agora pra maratona de Chicago — também com uma desculpa para poder viajar, tenho feito aquelas majors, as principais maratonas do mundo. Já fiz Boston, fiz Tóquio, agora em outubro vou fazer Chicago — faltam três, são seis no total, seria fazer a metade das majors.

Não é sprint, mas, em médio prazo, tenho as duas montanhas que faltam para os sete cumes: pretendo ir para a Papua Nova Guiné escalar o Carstensz, a montanha mais alta da Oceania — mais baixa, muito menos complexa que o Everest ou outras, mas tá há três anos fechada, porque estão sequestrando escaladores numa zona em conflito pelo território. Então espera mais um pouco.

E, depois, a Antártida, o Monte Vinson — também muito fria, menos técnica, mas cara, porque envolve toda uma logística, uma expedição difícil de conseguir. São essas duas, e não tenho pressa; tá no horizonte de médio prazo. No Brasil, gosto desses números como referência, não pelo ego: tem 10, 11 pessoas que fizeram os sete cumes, e o Everest tinha 37 e tal. É bacana ver o quanto isso é nicho, e o quanto envolve uma especialização forte.

Profissionalmente, é difícil, depois de um ano tão transformador — tô com planos, e isso também fazia na montanha: sempre penso em caminhos, às vezes alternativos. Tem um caminho, sim, de mundo corporativo — mas, voltando pra questão do propósito, desde que sejam empresas que me conectem com esse olhar: será que é algo que posso fazer, que me permita participar de uma transformação social, ter autonomia, liderança e influência? Porque, às vezes, isso não é em todas as empresas.

Ao mesmo tempo, me conectando com o meu estilo de vida de esporte saudável, é um pouco do que penso pro mundo corporativo. Vamos ver se vou encontrar ou não. Até nem sei se vou continuar morando no Brasil: tenho olhado a possibilidade de voltar pra Colômbia — minha esposa é colombiana, então esse é um caminho também, ou outros países; estamos sempre abertos a outras coisas.

Não tô fechado, quero aprender coisas novas, tenho curiosidade, quero poder ajudar. Não sei se vai ser o mundo corporativo ou se vou empreender — ainda tô pensando, desde que conecte com o propósito, tenho o mundo aberto. Porque, se não conectar com o propósito, vai ser um voo curto — em algum momento eu vou me cobrar.

Não quero ser injusto com quem eu estiver, e não é só comigo: não quero ser injusto, principalmente, com o Filipe que era o menininho que tinha ali seus sonhos, seus valores. Não quero, um dia, ser mais velho, olhar para trás e falar 'decepcionei aquele menininho'. Quero ser fiel aos meus propósitos, e acho que existem cada vez mais empresas, indústrias e possibilidades de fazer isso em que acredito, em diferentes marcas.

Então fico tranquilo: você tá escrevendo a história da sua vida. Continue trilhando esse caminho, tenho certeza que vem muito mais aventura por aí.

Dicas: esporte, propósito e os livros que marcaram

Espero. A gente tá indo pra reta final desse episódio, e a gente sempre faz esse trocadilho de dicas: de livros, cursos ou recursos que você pode passar para quem tá acompanhando a gente até aqui — até em questões de esporte, fique à vontade.

Vou começar pela parte de esporte: ao longo desses dez anos, também comecei a entender e a acreditar — e essa é uma crença minha — que todos podem ter um amor por algum esporte. Qual é o esporte? E, quando falo esporte, é de uma maneira ampla: pode ser dança, yoga, caminhada, trilha, bicicleta. Acredito muito nisso, e, inclusive, que é papel das empresas influenciar essa consciência nos colaboradores, incentivar.

Não só o básico, o benefício do plano de academia — para mim, isso tem que ser muito mais: as empresas deveriam olhar seus KPIs de colaboradores assim: quantos estão dedicando tempo suficiente à sua qualidade de vida, fazendo esporte, dança, yoga? Porque, às vezes, as empresas têm um discurso para fora, mas não olham para o seu próprio quadro.

Primeiro, a minha sugestão: não deixem de explorar esse esporte, vocês vão se apaixonar — dê uma chance, e, se não gostar, não tem problema, vai pro próximo. E não precisa ser essa coisa de performance — eu, claro, adoro performance, treinei um ano inteiro para conseguir fazer uma maratona em menos de 3 horas, e adoro poder falar isso, mas não é porque é 3 horas, é porque percebi que consegui chegar nisso.

Nem todo mundo precisa ter esse olhar de performance, mas gostaria que pudesse ter um olhar de estar melhor, porque isso vai cobrar em algum momento na sua vida. Ter essa preocupação com o corpo, para mim, é super importante. A primeira dica é essa: procure referências, um time de corrida, um grupo de dança, porque, além do esporte, isso traz relacionamento, novos amigos.

É triste, mas, quanto mais velho a gente vai ficando, talvez tenha menos amigos. Buscar ter essa rede, essa comunidade que gera pertencimento, pessoas que acreditam no mesmo propósito, ou querem ter o mesmo desafio, a mesma prova — isso é incrível. Minha primeira recomendação: olhem no Instagram a quantidade de empresas de esporte que existem por aí.

Há uns 15 dias, a revista Exame publicou uma matéria sobre a quantidade de CEOs que têm praticado esportes e contagiado suas empresas. Fica aí a dica pros CEOs continuarem impactando positivamente os funcionários, se motivarem a treinar — até porque uma pessoa com saúde mental e física mais qualificada produz muito mais, já é comprovado.

Total. E, pensando em livros, cursos?

Tem um livro — e é bacana porque a pessoa que me deu esse livro, ali em 2010, um diretor da Natura, o Daniel Levi, nem chegou a recomendar, só me deu. É Chasing Daylight — depois a gente coloca aqui o nome em português, também existe. É a história do CEO mundial da KPMG: ele descobre que está com um câncer terminal.

Não vou contar o livro todo, mas a sinopse: sendo uma pessoa super racional, de planejamento estratégico, o que ele vai fazer é planejar como vão ser os seus últimos meses de vida. Não vou contar mais, porque vou estragar a história, mas busquem e leiam, porque é super conectado com o que a gente conversou aqui, que é o propósito.

Quando li esse livro, me ajudou muito a repensar as minhas prioridades, os meus propósitos, buscar aqueles sonhos adormecidos. É um livro bem bacana, e uma leitura muito corporativa também, porque é alguém que veio desse mundo. Vale a pena ler.

Tem outro, também mais corporativo: a história do fundador da Patagonia — acho que, no outro podcast, já tinha indicado, mas aqui, sendo mais corporativo, é um livro que conta a história da Patagonia, uma empresa de causa, de propósito. Isso dá muita ideia para empreendedores pensando os valores das suas empresas, lendo a história e referência de outras.

Sempre gosto, adoro biografia, história de empresa — esse é super legal. E, já que tô falando, lembrei de um que vale muito, conectado com o esporte: a história do fundador da Nike, o Shoe Dog. Ele conta a história da Nike como uma história de empreendedorismo, de resiliência — você acha que vai fechar a empresa, e hoje é uma das maiores do mundo, baseada em propósito e em não desistir. A história do fundador da Nike é incrível, sensacional.

Para você que nos acompanha, tá aqui, muito obrigado. Estivemos aqui com o Filipe Chamusca em mais um episódio do Mundo da Lua. Decolamos de volta pra Terra, do mundo dos negócios. Obrigado, Filipe.

Não, obrigado vocês, galera.